{"id":2176,"date":"2016-06-21T07:17:41","date_gmt":"2016-06-21T07:17:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.joanmargarit.com\/en\/joan-margarit-pode-um-homem-salvar-uma-lingua\/"},"modified":"2016-06-21T07:26:21","modified_gmt":"2016-06-21T07:26:21","slug":"joan-margarit-pode-um-homem-salvar-uma-lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.joanmargarit.com\/en\/joan-margarit-pode-um-homem-salvar-uma-lingua\/","title":{"rendered":"Joan Margarit: pode um homem salvar uma L\u00edngua?"},"content":{"rendered":"<p>Joana Em\u00eddio Marques<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 um poeta social, nem um poeta da p\u00e1tria, mas nas suas palavras a L\u00edngua Catal\u00e3 liberta toda a sua pot\u00eancia criadora e mostra porque \u00e9 que &#8220;Espanha sem a Catalunha n\u00e3o era nada&#8221;<\/p>\n<p>Abrimos a antologia \u2018Misteriosamente Feliz\u2019, lemos uns quantos poemas e ficamos estarrecidos: como \u00e9 que este poeta nos anda a passar despercebido h\u00e1 mais de 40 anos?<\/p>\n<p>Uma das grandes utopias da modernidade tecnol\u00f3gica, cientifica, digital \u00e9 prometer-nos de que nada nos escapar\u00e1. Que estamos no mundo todo sem sair de casa, que tudo o que h\u00e1 a saber e a descobrir est\u00e1 ao nosso alcance num <em>clic<\/em>. No entanto, muitos de n\u00f3s n\u00e3o conhecemos Joan Margarit, o enorme poeta que se tornou um dos s\u00edmbolos da cultura catal\u00e3 e da Catalunha independente. Seguramente um dos grandes poetas do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1368609\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<div id=\"attachment_1368609\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1368609\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" resrc wp-image-1368609\" src=\"http:\/\/img.obsnocookie.com\/s=w800,pd1\/o=80\/http:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/22150335\/joanmargarit-e1456153485863.jpg\" alt=\"Misteriosamente Feliz tem a chancela da L\u00edngua Morta\" width=\"270\" height=\"372\" data-src=\"http:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/22150335\/joanmargarit-e1456153485863.jpg\" \/><p id=\"caption-attachment-1368609\" class=\"wp-caption-text\">Misteriosamente Feliz tem a chancela da L\u00edngua Morta<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Casa da Miseric\u00f3rdia<\/em> (\u00d3vni) e <em>Misteriosamente Feliz<\/em> (L\u00edngua Morta) s\u00e3o tudo o que temos em portugu\u00eas deste poeta que se estreou em 1963 em castelhano e que em 1978 renegou toda a sua obra para escrever em catal\u00e3o, a l\u00edngua materna, a l\u00edngua proibida, casulo de onde morreu como poeta comum e renasceu como continuador e renovador da milenar cultura catal\u00e3. A mesma que deu ao mundo Ant\u00f3nio Machado, Mir\u00f3, Dali, Gaudi e que adotou Picasso\u2026 e que agora est\u00e1 a fazer tremer as bases pol\u00edticas de Espanha.<\/p>\n<p>Margarit n\u00e3o \u00e9 apenas um dos mais amados e premiados poetas da Catalunha, \u00e9 tamb\u00e9m um dos mais lidos poetas contempor\u00e2neos espanh\u00f3is. At\u00e9 porque, apesar de escrever em catal\u00e3o, o poeta encarrega-se ele pr\u00f3prio de traduzir tudo para castelhano, pelo que a sua obra \u00e9 amplamente conhecida e aumenta a nossa estranheza de n\u00e3o haver editores interessados em divulg\u00e1-la.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1368644\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<div id=\"attachment_1368644\" style=\"width: 281px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1368644\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"resrc wp-image-1368644\" src=\"http:\/\/img.obsnocookie.com\/s=w800,pd1\/o=80\/http:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/22153044\/k_margarit3d2.jpg\" alt=\"k_margarit3D2\" width=\"271\" height=\"339\" data-src=\"http:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/22153044\/k_margarit3d2.jpg\" \/><p id=\"caption-attachment-1368644\" class=\"wp-caption-text\">Casa da Miseric\u00f3rdia recebeu, em 2008, o pr\u00e9mio Nacional de Poesia. Em 2009 foi publicado em Portugal pela Ovni.<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E a prova de que s\u00e3o as pequenas editoras independentes que est\u00e3o a zelar pela tradu\u00e7\u00e3o de poesia internacional \u00e9 que foi uma j\u00e1 desaparecida editora Ovni a respons\u00e1vel pela primeira tradu\u00e7\u00e3o de Margarit para portugu\u00eas, em 2009. Agora \u00e9 a vez de a L\u00edngua Morta, enquanto luta estoicamente para pagar o ISBN, a dar-nos, no seu jeito discreto de ser, este <em>Misteriosamente Feliz<\/em>, uma antologia onde encontramos poemas de todos os livros de Margarit desde <em>Cr\u00f3nica<\/em>(1975), a \u00fanica coisa que o poeta salvou da sua vida como poeta castelhano, at\u00e9 <em>Des d\u2019on Tornar a Estimar<\/em> (2015).<\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 do jovem tradutor e investigador Miguel Filipe Mochila, que \u201clamenta\u201d o enorme desconhecimento que temos da poesia espanhola, o desinteresse crescente das editoras em publicarem poesia traduzida e de como isso \u00e9 nefasto para a nossa pr\u00f3pria cultura, \u201cpois fecha-nos num inevit\u00e1vel provincianismo\u201d. Ao Observador, a L\u00edngua Morta explicou que considera Margarit \u201cum dos maiores poetas contempor\u00e2neos mundiais\u201d e isso justificou fazer esta tradu\u00e7\u00e3o\/edi\u00e7\u00e3o, \u201ccara para as possibilidades financeiras da editora e que se deveu sobretudo \u00e0 generosidade e ao talento de Miguel Filipe Mochila\u201d. A pequenin\u00edssima edi\u00e7\u00e3o de <em>Misteriosamente Feliz<\/em> (de 250 exemplares) esgotou agora na Feira do Livro de Lisboa e, infelizmente para os leitores, a L\u00edngua Morta diz que neste momento n\u00e3o tem \u201ccondi\u00e7\u00f5es financeiras\u201d para reeditar o livro.<\/p>\n<p><strong>A minha p\u00e1tria \u00e9 a l\u00edngua catal\u00e3<\/strong><br \/>\n<em>(\u2026) Cidade com a mis\u00e9ria de uma guerra <\/em><em>perdida<\/em><em>que<\/em><em> nos obrigava a amar com f\u00faria o futuro:<\/em><em>tens no passado janelas que na tarde se<\/em><em>acendem<\/em><em>como<\/em><em> mansos animais. Janelas que <\/em><em>recordam<\/em><em>todos<\/em><em> os nossos triunfos \u2013pobres triunfos ef\u00e9meros \u2014<\/em><em>ardentes nas ruas. Fui-te fiel, cidade:<\/em><em>numa ou noutra l\u00edngua, falei sempre de ti! (p.127)<\/em><\/p>\n<p>A frase de Pessoa podia ter sido escrita por Margarit, para quem a quest\u00e3o da l\u00edngua se colocou de uma forma muito mais tr\u00e1gica do que para o poeta portugu\u00eas, uma vez que, depois da Guerra Civil Espanhola, o catal\u00e3o foi proibido. E de cada vez que o pequeno Margarit se desca\u00eda utilizado a escola ou na rua uma palavra da sua l\u00edngua materna era repreendido com um \u201cfala crist\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O castelhano era pois a l\u00edngua crist\u00e3 e o catal\u00e3o, l\u00edngua pag\u00e3, coisa diab\u00f3lica, degenerada mas, ainda assim, l\u00edngua materna. Linguagem primeira dos afetos, t\u00e3o poderosa como a pr\u00f3pria imagem materna, siderante, inescap\u00e1vel. N\u00f3s, apesar dos anos de dom\u00ednio castelhano, n\u00e3o fazemos ideia do que \u00e9 sermos proibidos de falar portugu\u00eas, ou de s\u00f3 o podermos falar no seio familiar. \u201cA ferida de uma l\u00edngua roubada \u00e9 inultrapass\u00e1vel\u201d, h\u00e1 de declarar o poeta, que nasceu em 1938 em plena guerra civil na aldeia de Sana\u00fcja, onde a fam\u00edlia se tinha refugiado. O pai lutava do lado dos republicanos, esteve preso, e a fam\u00edlia viveu de forma particularmente traum\u00e1tica a derrota e a ascens\u00e3o de Franco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1368680\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<div id=\"attachment_1368680\" style=\"width: 582px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1368680\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" resrc wp-image-1368680\" src=\"http:\/\/img.obsnocookie.com\/s=w800,pd1\/o=80\/http:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/22154430\/5686258_orig.jpg\" alt=\"Margarit na aldeia de Sana\u00fcja em 1941, com a m\u00e3e, a av\u00f3 e a tia\" width=\"572\" height=\"388\" data-src=\"http:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/22154430\/5686258_orig.jpg\" \/><p id=\"caption-attachment-1368680\" class=\"wp-caption-text\">Joan Margarit na aldeia de Sana\u00fcja (Catalunha) em 1941, com a m\u00e3e, a av\u00f3 e a tia<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na escola apenas se falava castelhano, e o catal\u00e3o era a l\u00edngua de casa que partilhava sobretudo com os av\u00f3s que, aos domingos, o levavam ao cinema. A sua l\u00edngua era um abrigo, simultaneamente esplendoroso e terr\u00edfico. Por isso demorou muitos anos a assumi-la. \u201cN\u00e3o fa\u00e7o poesia social, nem patri\u00f3tica. Mas salvar a L\u00edngua p\u00f4s-me frente a frente com a minha gente e, ao mesmo tempo, deixou-me \u00e0 merc\u00ea deles\u201d, mais uma vez lembrando que as palavras n\u00e3o s\u00e3o coisas, mas s\u00edmbolos das coisas, das experiencias corp\u00f3reas e cinest\u00e9sicas arcaicas que lhes deram origem.<\/p>\n<p>Fez-se poeta nas viagens entre Barcelona e Tenerife para onde a fam\u00edlia se mudaria na sua adolesc\u00eancia. Tornou-se arquiteto, especialista em C\u00e1lculo de Estruturas, n\u00e3o para fugir \u00e0 poesia mas porque diz \u201cse a matem\u00e1tica \u00e9 a mais exata das ci\u00eancias, a poesia \u00e9 mais exata arte da palavra\u201d. Estar\u00e1 ligado \u00e0 continua\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o da Sagrada Fam\u00edlia, do anel o est\u00e1dio Ol\u00edmpico de Barcelona e \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o de velhos bairros sociais da capital catal\u00e3.<\/p>\n<p>Barcelona, com os seus esplendores e mis\u00e9rias, \u00e9 elevada, na poesia de Margarit, a uma cidade primordial, que se confunde com a Paris de Baudelaire, com \u00cdtaca de Ulisses, com o corpo de Calipso, com o rosto paterno marcado por uma terr\u00edvel cicatriz. A cidade, na sua arquitetura e na sua geografia urbana, as suas for\u00e7as f\u00edsicas e espirituais confundem-se com o pr\u00f3prio humano nas suas infinitas metamorfoses.<\/p>\n<p>E \u00e9 neste caldo cultural fervilhante que \u00e9 e foi a Catalunha que Joan Margarit exp\u00f5e a sua posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica face independ\u00eancia, numa entrevista a uma esta\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio australiana:<\/p>\n<p>\u201cEm Espanha h\u00e1 uma grande quest\u00e3o ligada \u00e0 Liberdade, que \u00e9 a independ\u00eancia da Catalunha. Eu coloco a quest\u00e3o ao n\u00edvel da Roma e da Gr\u00e9cia antigas. Qual dos imp\u00e9rios ganhou ou ganha? A Gr\u00e9cia porque produziu cultura. Uma cultura sem a qual Roma n\u00e3o seria nada. N\u00e3o existiria. Roma \u00e9 a Gr\u00e9cia com engenharia, com arcos. O \u00fanico triunfo de um pequeno pa\u00eds \u00e9 a sua cultura. A \u00fanica possibilidade de liberdade da Catalunha \u00e9 a sua cultura, e a Catalunha tem feito algo extraordin\u00e1rio que \u00e9: atrav\u00e9s da sua l\u00edngua gerar cultura.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1368722\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<div id=\"attachment_1368722\" style=\"width: 2010px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1368722\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"resrc wp-image-1368722 size-full\" src=\"http:\/\/img.obsnocookie.com\/s=w800,pd1\/o=80\/http:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/22160429\/74734558.jpg\" alt=\"BARCELONA - JUNE 17: Festival goers enjoy Sonar by Night at the Sonar 2007 festival on June 17, 2007 in Barcelona, Spain. (Photo by Miles Willis\/Getty Images)\" width=\"2000\" height=\"1210\" data-src=\"http:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/22160429\/74734558.jpg\" \/><p id=\"caption-attachment-1368722\" class=\"wp-caption-text\">Barcelona das noites, dos caf\u00e9s, das ramblas e dos sub\u00farbios \u00e9 um dos espa\u00e7os centrais da poesia de Margarit<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estreou-se em castelhano, em 1963, numa paisagem po\u00e9tica que n\u00e3o tinha espa\u00e7o para a for\u00e7a simb\u00f3lica do seu realismo. Em 1978 era ainda era quase desconhecido quando tomou a radical decis\u00e3o de passar a escrever em catal\u00e3o: \u201cA l\u00edngua da poesia \u00e9 a cripta sem a qual n\u00e3o haveria catedrais. A poesia s\u00f3 pode ser escrita na l\u00edngua-materna. Perdi 20 anos a tentar escrever em castelhano, porque s\u00f3 aos 40 anos pude entender isto\u201d, diz Margarit numa das v\u00e1rias entrevistas em que \u00e9 abordado sobre a sua decis\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que, depois de rejeitar toda a sua obra anterior a (guardando apenas <em>Cr\u00f3nica<\/em>, de 1975) Joan Margarit ganha um novo f\u00f4lego como poeta e, em 1982, recebe os primeiro pr\u00e9mios da sua carreira: Miquel de Palol e Vicent Andr\u00e9s Estell\u00e9s de 1982. Em 1984 ganha o premio Nacional da Cr\u00edtica. E em 2008 o pr\u00e9mio Nacional de Poesia. Os pr\u00e9mios e enc\u00f3mios nunca fizeram dele um \u201cpoeta oficial\u201d ou num \u201cpoeta de carreira\u201d. E \u00e9 ele mesmo quem avisa \u201ca poesia dos poetas profissionais \u00e9 terr\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>Uma po\u00e9tica do quotidiano Coltrane, Chet Baker, Baudelaire e Leo Ferre, boulevards e ramblas, caf\u00e9s e esta\u00e7\u00f5es de comboio, velhos hot\u00e9is \u00e0 beira mar, navios oxidados, praias vazias. Uma Europa incessantemente destru\u00edda e reinventada nos seus mitos. Desde logo afirmando que Ulisses morreu nas praias de Troia e que, portanto, tudo o que vivemos \u00e9 alucina\u00e7\u00e3o de uma coisa h\u00e1 muito morta. Nada nos resta sen\u00e3o o brilho das estrelas h\u00e1 muito extintas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1368752\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<div id=\"attachment_1368752\" style=\"width: 468px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1368752\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" resrc wp-image-1368752\" src=\"http:\/\/img.obsnocookie.com\/s=w800,pd1\/o=80\/http:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/22161148\/images-11.jpg\" alt=\" &quot;Indiferente, Chet Baker estaba dentro \/ del foco, como si fuese la luz \/ de un bar desierto, al fondo de una calle siniestra&quot;\" width=\"458\" height=\"312\" data-src=\"http:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/22161148\/images-11.jpg\" \/><p id=\"caption-attachment-1368752\" class=\"wp-caption-text\">\u201cIndiferente, Chet Baker estaba dentro \/ del foco, como si fuese la luz \/ de un bar desierto, al fondo de una calle siniestra\u201d<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A perda, a viagem, a casa, s\u00e3o as marcas fundamentais da poesia de Margarit, como explica Miguel Filipe Mochila, no posf\u00e1cio de<em>Misteriosamente Feliz<\/em>, um texto s\u00f3lido e aliciante. A arquitetura urbana surge intimamente ligada \u00e0s experiencias do poeta, no dialogo de confronto do Eu com o espa\u00e7o que o rodeia. Mesmo sendo arquiteto e trabalhando com a resist\u00eancia dos materiais, a argamassa, os pilares, as funda\u00e7\u00f5es das grandes constru\u00e7\u00f5es humanas s\u00e3o feitas de mat\u00e9rias intang\u00edveis como o sonho, a mem\u00f3ria, o amor e a morte. Se fosse imagem esta poesia seria um quadro de Edward Hopper; corpos e cidades, presos na sua exist\u00eancia excessiva e intranspon\u00edvel.<\/p>\n<p>Os objetos, os gestos, os lugares provis\u00f3rios, os espa\u00e7os degradados pelo uso, a casa e os seus fantasmas, a viagem como condena\u00e7\u00e3o a uma busca sem fim, os corpos, comp\u00f5em um quotidiano onde refulgem sucessivas camadas de tempo e onde cada experi\u00eancia ganha um poderoso car\u00e1ter simb\u00f3lico. Podemos mesmo dizer que Margarit faz bem aquilo que os poetas portugueses da chamada \u201cpoesia do quotidiano\u201d tentam fazer sem jamais conseguir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1368823\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<div id=\"attachment_1368823\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1368823\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"resrc wp-image-1368823 size-full\" src=\"http:\/\/img.obsnocookie.com\/s=w800,pd1\/o=80\/http:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/22163842\/hopper4-3.jpg\" alt=\" A solid\u00e3o ontologica de Edward Hopper \u00e9 semelhante \u00e0 dos poemas de Margarit\" width=\"700\" height=\"527\" data-src=\"http:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/22163842\/hopper4-3.jpg\" \/><p id=\"caption-attachment-1368823\" class=\"wp-caption-text\">A solid\u00e3o inescap\u00e1vel dos corpos e das cidades de Edward Hopper \u00e9 semelhante \u00e0 dos poemas de Margarit<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo quando \u00e9 autobiogr\u00e1fico (como no livro <em>Joana<\/em>, onde conta a doen\u00e7a e morte da sua filha), o poeta catal\u00e3o consegue evocar a universalidade da perda, do amor, e da impossibilidade tr\u00e1gica de chegar ao absoluto no Outro. Nele, como em Verg\u00edlio Ferreira (escritor muito admirado por Margarit) estamos ainda numa solid\u00e3o ontol\u00f3gicas, numa solid\u00e3o inacabada.<\/p>\n<p><em>\u201cVais chegando \u00e0 ilha e agora sabes<\/em><br \/>\n<em>o que quer dizer a vida, o que \u00e9 o destino.<\/em><br \/>\n<em>O teu arco ser\u00e1 p\u00f3 na prateleira.<\/em><br \/>\n<em>P\u00f3 ser\u00e3o o tear e a sua pe\u00e7a.<\/em><br \/>\n<em>Os pretendentes que l\u00e1 fora acampam,<\/em><br \/>\n<em>s\u00e3o sombras dos sonhos de Pen\u00e9lope.<\/em><br \/>\n<em>Vais chegando \u00e0 ilha: nas rochas,<\/em><br \/>\n<em>como no tempo da Odisseia, bate o mar.<\/em><br \/>\n<em>Nunca ningu\u00e9m teceu a tua aus\u00eancia,<\/em><br \/>\n<em>nem desteceu o olvido da tua partida.<\/em><br \/>\n<em>Por mais que \u00e0s vezes a raz\u00e3o o ignore,<\/em><br \/>\n<em>Pen\u00e9lope \u00e9 uma sombra do teu sonho.<\/em><br \/>\n<em>Vais chegando \u00e0 ilha: as gaivotas<\/em><br \/>\n<em>que cobrem a praia n\u00e3o se movem<\/em><br \/>\n<em>quando a atravessas sem deixares rasto,<\/em><br \/>\n<em>porque tu n\u00e3o existes:\u00e9s o mito.<\/em><br \/>\n<em>Haver\u00e1 talvez um Ulisses morto em Tr\u00f3ia,<\/em><br \/>\n<em>e chor\u00e1-lo-\u00e1 talvez uma mulher,<\/em><br \/>\n<em>mas no sonho de um poeta cego<\/em><br \/>\n<em>continuas a salvar-te. Na cabe\u00e7a de Homero,<\/em><br \/>\n<em>eterno e rigoroso, a cada alvorada,<\/em><br \/>\n<em>um solit\u00e1rio Ulisses desembarca.\u201d<br \/>\n(Ulisses em \u00c1guas de \u00cdtaca,p.35)<\/em><\/p>\n<p>Assim, a po\u00e9tica de Margarit \u00e9 err\u00e1tica, deambulat\u00f3ria<em>, jazz\u00edstica<\/em>, cheia de sobressaltos, impulsos l\u00edricos e palavras rudes, carne, e \u00f3xido, \u00e9 sens\u00edvel \u00e0s modula\u00e7\u00f5es dos sonhos e as irrup\u00e7\u00f5es melanc\u00f3licas ou revoltas da alma humana. Como as cidades que incessantemente percorre a sua poesia tem esse bul\u00edcio ca\u00f3tico, ora sensual, ora tr\u00e1gico que encontramos no<em> spleen <\/em>baudelairiano mas que este autor leva ainda mais longe, porque n\u00e3o nele nenhuma sombra de snobismo, ou distanciamento agressivo, pois mesmo a morte inevit\u00e1vel abre para uma possibilidade futurante: o regresso \u00e0 idade de ouro das palavras, quando estas n\u00e3o eram meros sons mortos pelo uso, mas s\u00edmbolos de experi\u00eancias vivas, vibrantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/observador.pt\/especiais\/joan-margarit-pode-um-homem-salvar-uma-lingua\/\">http:\/\/observador.pt\/especiais\/joan-margarit-pode-um-homem-salvar-uma-lingua\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joana Em\u00eddio Marques N\u00e3o \u00e9 um poeta social, nem um&#8230;<br \/><a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/www.joanmargarit.com\/en\/joan-margarit-pode-um-homem-salvar-uma-lingua\/\">Read more<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2168,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[88],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v20.3 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Joan Margarit: pode um homem salvar uma L\u00edngua? 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