{"id":1678,"date":"2015-10-02T10:07:21","date_gmt":"2015-10-02T10:07:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.joanmargarit.com\/o-passado-espera-nos-amanha-2\/"},"modified":"2016-05-10T14:03:03","modified_gmt":"2016-05-10T14:03:03","slug":"o-passado-espera-nos-amanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.joanmargarit.com\/es\/o-passado-espera-nos-amanha\/","title":{"rendered":"O passado espera-nos amanh\u00e3"},"content":{"rendered":"<p><strong>A enorme poesia do catal\u00e3o Joan Margarit numa edi\u00e7\u00e3o prodigiosa<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Joan Margarit, poeta e tradutor da sua pr\u00f3pria poesia, faz eclodir nela imagens belas e surpreendentes, sempre sob a \u00e9gide disf\u00f3rica da melancolia e do luto RUI GAUD\u00caNCIO<\/p>\n<p>A L\u00edngua Morta editou uma antologia bilingue de poemas escritos entre 1970 e 2015 por Joan Margarit, um dos poetas maiores dos nossos tempos. Catal\u00e3o, nascido em 1938, est\u00e1 traduzido em diferentes l\u00ednguas, do castelhano ao euskera, do ingl\u00eas ao alem\u00e3o, do russo ao hebraico. Em portugu\u00eas, idioma em que apenas estava publicado Casa da Miseric\u00f3rdia (OVNI, 2009), surge agora esta edi\u00e7\u00e3o prodigiosa. Para al\u00e9m de um curto pref\u00e1cio do autor, encontramos notas \u00fateis de tradu\u00e7\u00e3o e um longo posf\u00e1cio (As casas e as perdas \u2014 notas para uma leitura da poesia de Joan\u00a0Margarit) que lan\u00e7a os alicerces do mundo deste poeta. E ainda uma\u00a0biobibliografia no final.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>CR\u00cdTICA (DIARIO \u201dP\u00daBLICO\u201d 25-09-2015) &#8211;\u00a0MARIA DA CONCEI\u00c7\u00c3O CALEIRO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Misteriosamente Feliz. Uma Antologia<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-1671 size-medium alignnone\" src=\"http:\/\/www.joanmargarit.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Misteriosamente-Feliz-202x300.png\" alt=\"Misteriosamente Feliz\" width=\"202\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.joanmargarit.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Misteriosamente-Feliz-202x300.png 202w, https:\/\/www.joanmargarit.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Misteriosamente-Feliz.png 505w\" sizes=\"(max-width: 202px) 100vw, 202px\" \/><\/p>\n<p>Autoria: Joan Margarit<\/p>\n<p>(Org. Miguel Filipe Mochila)<\/p>\n<p>L\u00edngua Morta<\/p>\n<p><strong><em><a href=\"http:\/\/static.publico.pt\/files\/Ipsilon\/2015-09-25\/Joan%20Margarit_excerto.pdf\">Ler excerto<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Poeta e arquitecto, Joan Margarit \u00e9 uma figura culta, \u00edntima e cosmopolita no que convoca, desprendendo do singular uma resson\u00e2ncia universal, uma reverbera\u00e7\u00e3o que deixa cada semente modesta a vibrar longamente dentro do leitor; \u00e9 um fazedor de fr\u00e1trias, e a\u00ed reside a sua maior diferen\u00e7a face ao quotidiano sem mundo dos demais. De resto, \u00e9 ele o tradutor da sua pr\u00f3pria poesia (ou, melhor, o conversor da sua pr\u00f3pria poesia, posto que habita duas l\u00ednguas suas: o castelhano e o catal\u00e3o). Nela, h\u00e1 diversos dados autobiogr\u00e1ficos (pessoais, geracionais, pol\u00edticos) que podem reconhecer-se com facilidade: teve quatro filhos, tr\u00eas raparigas e um rapaz, mas morreram dois (Anna pouco depois de ter nascido, em 1967; Joana, que sofria de uma doen\u00e7a gen\u00e9tica rara e de origem desconhecida, o S\u00edndrome de Rubinstein-Taybi, com um cancro, aos 30 anos). Tamb\u00e9m por isso, a morte est\u00e1 presente sob cada passo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O h\u00famus que acolhe a semente desta poesia \u2014 e quase em simult\u00e2neo, em paradoxo a faz deflagrar \u2014 \u00e9 uma esp\u00e9cie de tristeza mansa, uma maneira de amar suspendendo o long\u00ednquo, uma dor ou uma sabedoria vegetal do tempo, do envelhecimento, da ru\u00edna pr\u00e9-anunciada e j\u00e1 vivenciada de tudo. O que se traduz antes de mais no uso do imperfeito (a dura\u00e7\u00e3o infinda) e numa textualidade aparentemente natural mas de facto feita de uma manipula\u00e7\u00e3o de certos recursos que se quer apagada (o apagamento em si, a subtrac\u00e7\u00e3o, a retirada do sujeito, para al\u00e9m de maneira de fazer, s\u00e3o tema: h\u00e1 uma hemorragia das inst\u00e2ncias do poder e do querer): paralelismos, repeti\u00e7\u00f5es inebriantes, cad\u00eancias que musicalizam uma toada que se diria eleg\u00edaca. Mesmo quando os d\u00edcticos precisam no texto o tempo e o espa\u00e7o, mesmo quando se escreve interrompido por um atrito qualquer, o passado (a sua sempre mem\u00f3ria) talha o sujeito e \u00e9 esse atrito na dura\u00e7\u00e3o que cria o poema. Da\u00ed que o\u00a0<em>ethos<\/em>\u00a0desta poesia seja cerim\u00f3nia e elegantemente disf\u00f3rico mas mesmo assim n\u00e3o nocturno, avan\u00e7ando misteriosamente feliz. Em praticamente todos os poemas o autor escreve para um tu; \u00e9 uma poesia intimamente dial\u00f3gica, prova da sua explos\u00e3o nascida para o aberto, seja o outro desdobramento do eu ou um nome explicitado (Joana, Raquel, Mari, uma figura mais ou menos conhecida, um lugar&#8230;): \u201cUm telhado long\u00ednquo\/ a estante vazia de um director de orquestra(&#8230;)\/ o teu quarto ao clarear do dia\/ (&#8230;) perdura no mais fundo: \u00e9 donde vimos.\/ e \u00e9 o lugar onde vai ficando a vida\u201d. Um aspecto a sublinhar, subliminar a quem escreve, sens\u00edvel a quem l\u00ea, \u00e9 o pressentimento de um rumor (rumor de ti), um rumor inaud\u00edvel, surdo e l\u00edrico, sempre presente e no entanto desfazendo qualquer presen\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em Margarit, a poesia \u00e9 tamb\u00e9m modo de miseric\u00f3rdia. Na agonia de Joana, escreve um poema chamado\u00a0<em>Poesia<\/em>: \u201cComo Sisifo,\/ a vida para mim \u00e9 esta rocha\/ Carrego-a e conduzo-a at\u00e9 ao alto. (&#8230;)\/ \u00e9 uma forma de esperan\u00e7a. (&#8230;)\/ Penso que teria sido mais triste\/ se n\u00e3o tivesse podido arrastar uma pedra\/ sem outro motivo que n\u00e3o fosse o amor.\/ Lev\u00e1-la por amor at\u00e9 ao alto\u201d; leia-se, na mesma senda,\u00a0<em>Perde-se o sinal<\/em>, talvez um dos seus poemas mais belos e mais dilacerantes: \u201cN\u00e3o tenhas piedade do que foste,\/ porque a piedade \u00e9 demasiado breve:\/ n\u00e3o d\u00e1 tempo para construir nada.\/ de noite, num pequeno aeroporto,\/ v\u00eas um avi\u00e3o que vai subindo.\/ vai-se perdendo o sinal. \/E convences-te de que vives\/uma \u00e9poca que, sem esperan\u00e7a, \/ \u00e9 j\u00e1 a mais feliz da tua vida.\/ h\u00e1 uma outra poesia, haver\u00e1 sempre,\/ como h\u00e1 uma outra m\u00fasica.\/ A de Beethoven surdo. Quando se perde o sinal.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O poeta desenha espa\u00e7os fazendo neles eclodir imagens belas e surpreendentes, com referentes pouco usuais (as muletas azuis da Joana, o barulho na noite chuvosa de um carro do lixo), sempre sob a \u00e9gide disf\u00f3rica da melancolia, da perda. Experi\u00eancias singulares, que, estranhamente, n\u00e3o se enclausuram, antes fazem comunidade, remetem para o aberto, expandem-se e expandem o leitor \u2014 e isso \u00e9 uma grande arte. At\u00e9 que o fio se estanca e a posia de Margarit \u2014 dilacerada, cruel, el\u00edptica e abrutamente \u2014 faz estremecer a mansid\u00e3o, ferindo-a como a l\u00e2mina que corta em\u00a0<em>Mari<\/em>: \u201cEla acompanhou-te durante muito tempo\/ todas as tardes, para ir \u00e0 escola e \u00e0 nata\u00e7\u00e3o.\/ Foi a tua confidente, a amiga\/ daquela dolorosa adolesc\u00eancia\/ de lua de hospital e de azuis tardes\/ de lenta juventude.\/\/ A tua Mari,\/ as suas \u00faltimas visitas, quando os olhos\/ te pesavam para dentro com uma morte\/ que apagou todo aquele brilho\/ atr\u00e1s dos vidros embaciados do passado.\/\/ A Mari, o teu sorriso, o seu sorriso,\/ o cheiro a balne\u00e1rios de piscinas,\/ e tu nadando, nadando at\u00e9 \u00e0 morte.\/\/ Agora a Mari sabe-o, despede-se\/ de ti olhando as suas filhas. Sim, a Mari,\/ a Mari gr\u00e1vida, que negou\/ fazer os exames: n\u00e3o temia\/ ter uma crian\u00e7a como tu.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A enorme poesia do catal\u00e3o Joan Margarit numa edi\u00e7\u00e3o prodigiosa&#8230;<br \/><a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/www.joanmargarit.com\/es\/o-passado-espera-nos-amanha\/\">Leer m\u00e1s<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1671,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[86],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v20.3 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>O passado espera-nos amanh\u00e3 - Joan Margarit<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.joanmargarit.com\/es\/o-passado-espera-nos-amanha\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O passado espera-nos amanh\u00e3 - 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